Pressa de crescer na carreira, vontade de ganhar mais, desejo de largar tudo para empreender. São ambições que perpassam a cabeça de muitos jovens. Mas que também foi, um dia, o que muitos CEOs brasileiros — de startups a grandes empresas — vivenciaram enquanto cresciam na carreira. O que eles fizeram então para atingir seus objetivos? O livro "Diálogos com CEOs", organizado e produzido pelos sócios da consultoria Corall, dá algumas pistas a partir de entrevistas com 20 executivos. Entre insights sobre suas trajetórias pessoais, dilemas enfrentados no mercado e experiências marcantes, eles comentam quais conselhos gostariam de dar aos jovens que estão hoje ingressando no mercado de trabalho. Confira:

 

Ansiedade 

Romero Rodrigues, ex-CEO e fundador do Buscapé

"O erro que eles estão cometendo, eu acredito, não é em buscar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O maior problema é que há pouca disposição de investir para colher no futuro. A geração y tem muita ansiedade. É muito imediatista. Recebo currículos de profissionais com quatro, cinco anos de carreira que já passaram por cinco grandes empresas. E aí pergunto: você é escoteiro? Está colecionado crachás? O que fez de verdade nesses lugares? Quando prestei vestibular, achava que o importante era o nome da faculdade. Depois achei que eram as empresas nas quais trabalharia. E hoje eu sei que não é isso, mas o que você fez."


 

Jorge Nishimura, presidente do conselho de administração da Jacto

"A vida é um processo e uma tremenda escola. Observo no jovem de hoje uma ansiedade de subir muito rápido e vejo isso como um fator prejudicial, pois não se pode assumir determinadas posições sem ter tido verdadeira experiência. Comecei a coordenar o conselho aos 39 anos e só a partir deste ponto minha carreira passou a, de fato, se desenvolver como eu desejava. Antes, eu havia tentado várias outras coisas e só encontrei meu trilho depois de quase 15 anos de formação. Sempre digo que, se tivesse assumido, teria dado tudo errado." 


 

Liderança 

Fabio Schavartsman, presidente da Vale em depoimento concedido quando estava à frente da Klabin 

"O líder precisa cuidar do novo, ainda mais em empresas centenárias. Uma cultura muito forte, com muita experiência, tende a excluir o jovem inexperiente. O principal papel da liderança é fazer com que o jovem seja protegido para que tenha o tempo necessário para se integrar à cultura local, adquirir conhecimento e começar a lidar de igual para igual com os mais antigos. As empresas, de maneira geral, estão com o corpo muito envelhecido. A Klabin, não é exceção. Mas é preciso ter em mente que dá trabalho trazer o jovem e que o resultado demora a acontecer."


 

Faculdade 

 Alan Finkel, vice-presidente e gerente-geral Brasil da Novo Nordisk 

"Acho que quando saímos da faculdade, temos uma visão de ´eu quero ser isso´, ou ser um ídolo que me inspira. Mas, eventualmente, o mundo vai te levar para outros caminhos que, se você fechar o olho, irão passar despercebidos. Então fique com o olho aberto e segure uma dessas oportunidades para ir em frente. E não necessariamente fique focado apenas naquilo que pensou durante a faculdade. Siga seus instintos."


 

Chefe

Silvano Andrade, diretor-presidente da MRN (Mineração Rio do Norte) 

"Meu pai foi uma grande inspiração para mim e ele me disse algo importante no começo da carreira: ´Espero que tenha a sorte de ter bons chefes. Quanto melhores forem eles, maiores as chances de desenvolvimento profissional. Quando mais limitados eles forem, mais vai esbarrar no desenvolvimento da sua carreira´. Reforçaria esse conceito. Observe. Se você tem um chefe ruim, procure mudar de área, ou até mesmo de emprego. Se tiver um chefe bom, você vai se desenvolver muito mais. E cuide das pessoas em seu entorno, pois elas é que farão você crescer." 


 

Empreender 

Antônio Bastos, CEO da Omega Energia 

"Não é algo fácil e você ouvirá muito mais ´não´ do que ´sim´. É preciso insistir, mas com senso crítico. Às vezes, se investe muito tempo em uma ideia ruim, o que faz você perder tempo para alcançar a próxima. Tenha as ideias ruins, mas extermine-as rapidamente. A equação boa para fazer projetos decolarem é equilibrar a resiliência com senso crítico. Outra coisa importante é associar-se às pessoas certas. É difícil identificar isso antecipadamente, principalmente quando se é jovem. Mas dá para pedir ajuda."


 

Alexandre "Bio" Veiga, CEO da AgVali

"Fazer uma startup e empreender são atividades muito similares, mas não iguais. O mesmo acontece com ser maratonista ou fazer Iron Man, por exemplo. Abrir um restaurante ou consultoria tem muito a ver com metodologia e compreensão de uma proposta de valor, o que tem a ver com startups. Entretanto, a startup se difere pela pressão, que é parecida com a conclusão de um Iron Man no Havaí, com 50°C e umidade de 99%. A startup não é só empreender, mas criar algo novo que vive em um cenário de extrema incerteza."


 

Salário e propósito 

Sofia Esteves, fundadora e presidente do grupo DMRH 

"As pessoas falam muito sobre propósito, querem trabalhar em uma empresa onde possam impactar vidas, mas hora do ´vamos ver´, de fazer a transição de carreira, acabam escolhendo a opção que oferece maior status e maior salário. Primeiramente, ninguém tem tudo na vida. E é preciso ter coerência de enxergar as coisas das quais se abre mão. Assim, se não abro mão de atuar em um ambiente que realmente gere impacto em vidas, talvez deva abrir mão do maior salário ou da empresa de maior status social. Não é possível ter tudo ao mesmo tempo. A sociedade, principalmente a brasileira, no fundo, exige isso."


 

Diferencial 

Alexandre Hohagen, CEO da Nobox 

"Lembro de ter ouvido da Teresa Sanchez, uma das minhas líderes no início de carreira. ´Nunca vi um estagiário tão bem vestido como você! Sua camisa é perfeita! Você já se deu conta de que você acaba se diferenciando dos outros?´ Obviamente esse é apenas um exemplo. Há outras maneiras de se diferenciar. Por meio da leitura, postura, da dedicação, da coragem de errar, do olhar colaborativo, do entendimento holístico de uma organização. Mas, infelizmente, vivemos uma verdadeira comoditização profissional. No passado, falar inglês era um grande diferencial e pessoas eram contratadas apenas por essa habilidade. Hoje, a molecada já entra no mercado de trabalho sabendo ao menos três línguas. É preciso se perguntar como se diferenciar em um momento tão comoditizado como o do mundo corporativo."


 

Postura

Andrea Rolim, gerente-geral no Brasil da Yum!Brands 

"Eu era diretora de marketing na área de alimentos da Unilever e liderava um projeto. Lembro que uma pessoa de supply chain fez uma bobagem inenarrável, gigantesca mesmo, me fazendo atrasar a entrega. Tive a sensação de que o erro foi resultado de desleixo e me lembro da reunião com essa pessoa até hoje. Fui muito dura. Sou dura com algumas coisas até hoje, mas de forma bem diferente do que era. Depois dessa reunião, fui abordada por um gerente bem mais júnior do que na época, um alemão que trabalhava em embalagens e ele me disse: ´Alguém precisa te falar isso. Você é muito boa, eficiente, mas tem uma coisa que, se você não aprender a fazer, não chegará a lugar nenhum. As pessoas não gostam de trabalhar com você, porque você é muito dura. Não era preciso ter falado daquele jeito´. Foi como se tivesse me atropelado com um caminhão. Nunca havia gritado, mas existem formas e formas de se abordar problemas. E, naquele momento, me dei conta de que os abordava da forma errada. Foi como se uma chave tivesse virado, mudando completamente minha carreira. Quinze anos depois, sinto que a gestão do meu negócio é muito mais humanizado — sem ter perdido um pingo de eficiência."






Fonte: Época Negócios

 

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