2B Educação

Práticas Corporais Integrativas na redução do estresse

10/01/2019

Em uma civilização excessivamente estimulada por diferentes agentes estressores as Práticas Corporais Integrativas vêm se consolidando como importantes recursos terapêuticos para a redução do estresse e modulando positivamente diferentes dimensões da saúde.

Por: Prof. Me. Paulo Rodrigo Santos Aristides1
1. Professor do curso de Educação Física da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Intrutor de Qi Gong e Hatha Yoga.

Práticas Corporais Integrativas; resgatando o equilíbrio dinâmico do ser humano

As demandas impostas pela vida moderna tem provocado em boa parte da população um contínuo estado de estresse, revelando a necessidade de se adotar condutas de autocuidado que resgatem o equilíbrio físico e mental.

Via de regra, a resposta orgânica a um agente estressor representa um mecanismo protetor ancestral do ser humano, para lutar ou fugir, que garantiu a sobrevivência da espécie frente às dificuldades cotidianas. A ativação do sistema nervoso simpático (através da liberação de noradrenalina e adrenalina) e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (por meio da liberação de cortisol), ao mesmo tempo em que viabilizam condições físicas para enfrentar os problemas, disponibilizando energia no sangue para as contrações musculares, aumentando a pressão arterial, as frequências cardíaca e respiratória (dentre outras adaptações), também deprimem a participação do sistema imunológico.

Enquanto uma certa quantidade de estresse interno é necessária para superar as adversidades, o estresse prolongado ou crônico pode afetar negativamente a saúde desencadeando processos de adoecimento (físico e mental) reduzindo o bem-estar e comprometendo a qualidade de vida.

Nesse contexto, as Práticas Corporais Integrativas (PCI’s) (ou exercícios mente-corpo) vem assumindo um importante papel na redução do estresse e na mudança do comportamento humano, uma vez que dispõem de rico acervo técnico para modular os diferentes sistemas corporais e reverter os efeitos adversos do estresse crônico.

Utilizando-se de posturas, movimentos suaves, manipulações, exercícios respiratórios e mentalizações, PCI´s como Qi gong,  yoga, danças circulares, exercícios bioenergéticos, massagens e práticas meditativas representam na atualidade, recursos terapêuticos muito úteis para o resgate da saúde integral proposta milenarmente por diferentes culturas e filosofias sapienciais. A busca pelo equilíbrio entre o meio interno e externo, o individual e o coletivo, o físico e o espiritual, forjou essas práticas e os sistemas de cuidados com a saúde nos quais estão inseridas, tornando-as comprometidas com as múltiplas dimensões da corporeidade humana.

Foi a partir da insatisfação com o modelo convencional de atenção à saúde (biomédico) que se intensificou na população ocidental um movimento de procura por abordagens de cuidado mais abrangentes. Ao longo dos anos, as PCI´s (ligadas a um sistema médico ou não) migraram seu status, no campo da saúde, de práticas alternativas para complementares, impulsionando posteriormente à uma ressignificação teórico-prática de atenção à saúde fazendo emergir o conceito de medicina integrativa (ainda em construção) na medida em que busca-se integrar as abordagens biomédicas e vitalistas.

Apesar de preliminares, são promissores os resultados encontrados em pesquisas que investigaram os efeitos de diferentes PCI´s sobre indicadores de saúde, bem como, acerca de seu potencial de transformação positiva do comportamento humano. Vera e colaboradores (2018) realizaram um interessante estudo no qual investigaram os efeitos da prática de Qi Gong em vários parâmetros hormonais de estresse e medidas específicas de bem-estar psicológico em universitários. Os participantes realizaram durante um mês, três sessões de Qi Gong por semana, em grupo, com duração de trinta minutos e foram encorajados a realizar em casa sessões individuais que duravam metade do tempo. Ao final do estudo os participantes realizaram em média dezessete sessões e apresentaram redução significativa em hormônios relacionados ao estresse quando comparados ao grupo de universitários que não realizou nenhuma atividade.

Em outro estudo, realizado por Pascoe e colaboradores (2017), foram revisados sistematicamente 42 experimentos que investigaram os efeitos da prática do Yoga sobre parâmetros hormonais relacionados ao estresse. Foi observada a diminuição nos níveis de cortisol e citocinas, além de redução na pressão arterial, quando comparado a grupos que praticavam exercícios, terapias ou passavam por alguma instrução de comportamento.

Pelo exposto, é possível observar que o uso das PCI´s implica não apenas em uma busca por modular fatores orgânicos relacionados ao estresse crônico tais como pressão arterial, níveis de cortisol sanguíneo, variabilidade da frequência cardíaca ou condições musculoesqueléticas, mas também visam atuar sobre padrões mentais associados ao adoecimento, modificando-os de forma consistente e conduzindo o ser humano progressivamente a comportamentos mais saudáveis, utilizando como porta de acesso o relaxamento psicofísico.
 

Referências:
1- Vera, F.M.; Manzaneque, J.M.; Rodríguez, F.M.; Vadillo, M.; Navajas, F.; Heiniger, A.I.; Pérez, V.; Blanca, M.J. Assessment of hormonal parameters and psychological well-being in healthy subjects after a Taoist qigong program: An exploratory study. Scand J Psychol. 2018 Nov 14.

2- Pascoe, M.C.; Thompson, D.R.; Ski. C.F. Yoga, mindfulness-based stress reduction and stress-related physiological measures: A meta-analysis. Psychoneuroendocrinology. 2017 Dec;86:152-168.