Muitos de nossos professores iniciantes chegam às salas de aula tateando em busca do reconhecimento de alguma situação já vista, quase que por acaso, em um livro ou em uma palestra. Nas conversas com docentes em início de carreira, o protesto é sempre o mesmo: eu não estava preparado para isso. A reclamação é quase unânime: falta prática.
“Isso” pode se referir às atividades inclusivas com alunos com deficiência, à falta de verba para comprar materiais de apoio, a relacionamentos conflituosos na escola, a dificuldades familiares dos estudantes, à burocracia nas redes de ensino, entre tantas outras surpresas às quais precisam se adaptar.


 



 
Mandar os licenciandos para a sala de aula sem uma formação calcada nos desafios complexos da realidade escolar é sabotar o processo de ensino e de aprendizagem. Se queremos uma revolução a favor da equidade no Brasil, precisamos fazer da formação dos futuros professores um problema de todos nós: perguntar, fiscalizar e exigir melhores modelos e investimentos nessa área.
Recentemente, o Governo Federal anunciou um pacote de medidas para impulsionar melhores resultados na formação inicial, entre elas, a reformulação de uma iniciativa que ocorre no Brasil desde 2013, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), a que o Ministério da Educação (MEC) chamou de “residência pedagógica”. O projeto dá maior concisão a mudanças que já haviam sido sinalizadas em 2015, com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Magistério.
A residência nasce com esse nome não por acaso. O termo deriva da residência médica, que prevê uma intensa imersão na prática como parte do processo de aprendizagem da carreira. No caso da docência, o estudante poderá, a partir do 3º da graduação, fazer um estágio em uma escola de Educação Básica com a supervisão de docentes da rede de ensino e da universidade, além de contar com auxílio financeiro.
A iniciação à docência (ou seja, o Pibid) também funciona com a mesma dinâmica, a diferença é que apenas os estudantes de licenciatura podem se inscrever. A metodologia, que permite que o professor universitário entre em contato com as instituições escolares de ensino básico, acumulou elogios ao longo dos anos. Contudo, recebeu também críticas devido ao baixo número de licenciandos que escolhiam a carreira docente como destino final e ao alto custo da iniciativa que dá bolsas de R$ 400 a R$1.500. Desde o final de 2014, o Pibid vem sofrendo com cortes no programa, apesar dos protestos dos participantes.
A residência pedagógica, por sua vez, promete ter diferenciais como uma maior participação das secretarias de ensino nessa rede de formação de futuros professores e a aplicação de avaliações para coletar evidências sobre o programa. Outra meta é aumentar o número de estudantes de Pedagogia ou licenciatura que efetivamente se tornam professores da Educação Básica.
Faltam mais detalhes sobre o funcionamento do novo modelo, mas se forem preservadas as características básicas do Pibid, há um caminho positivo pela frente. Metodologias semelhantes já têm sido aplicadas em outros países como a Inglaterra, com o School-Led Trainning, que permite ao futuro professor inglês escolher rotas de acordo com a área em que quer lecionar.
O estágio tradicional, voltado à observação, tem muitas limitações, pois não permite que o estudante exerça características básicas da docência, como planejar e executar aulas, nem lidar com as dificuldades do ensino propriamente. A experimentação, a reflexão sobre a prática e o ajuste de metodologias de ensino sob a supervisão de professores experientes são imprescindíveis para a formação de um professor criativo, motivado e capaz de criar novas soluções para os diferentes problemas que surgem no dia-a-dia da escola.
Para um país que tem cerca de 2,2 milhões de professores, essas são medidas ainda embrionárias, mas que podem transformar a Educação se não forem descontinuadas a cada governo.

Fonte: Jornal O Globo. http://blogs.oglobo.globo.com/todos-pela-educacao/post/residencia-pedagogica-o-que-e-isso.html
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